Música: A mais bela expressão artística.



Cálice





Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado

Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa

De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça


Acesse aqui a música:





Análise da letra da música:

(Pai, afasta de mim esse cálice)Sintetiza uma súplica por algo que se deseja ver à distância. Boa parte da música faz uma analogia entre a Paixão de Cristo e o sofrimento vivido pela população aterrorizada com o regime autoritário. O refrão faz uma alusão à agonia de Jesus no calvário, mas a ambiguidade da palavra “cálice” em relação ao imperativo “cale-se”, remete à atuação da censura.
(De vinho tinto de sangue)O “cálice” é um objeto que contém algo em seu interior. Na Bíblia esse conteúdo é o sangue de Cristo, na música é o sangue derramado pelas vítimas da repressão e torturas.
(Como beber dessa bebida amarga)A metáfora do verso remete à dificuldade de aceitar um quadro social em que as pessoas eram subjugadas de forma desumana.
(Tragar a dor, engolir a labuta)Significa a imposição de ter que aguentar a dor e aceitá-la como algo banal e corriqueiro. “Engolir a labuta” significa ter que aceitar uma condição de trabalho subumana de forma natural e passiva.
(Mesmo calada a boca, resta o peito)Os poetas afirmam que mesmo a pessoa tendo a sua liberdade de pronunciar-se cerceada, ainda lhe resta o seu desejo, escondido e inviolável dentro do seu peito.
(Silêncio na cidade não se escuta)O silêncio está metaforicamente relacionado à censura, que, desta forma, é entendida como uma quimera, um absurdo inexistente, porque, na medida em que o silêncio não se escuta, o silêncio não existe.
(De que me vale ser filho da santa / Melhor seria ser filho da outra)Não fugindo à temática da religião, Chico e Gil usam de metáforas para mostrar suas descrenças naquele regime político e rebaixam a figura da “pátria mãe” à condição inferior a de uma “prostituta”, termo que fica subentendido na palavra “outra”.
(Outra realidade menos morta)Seria uma outra realidade, na qual os homens não tivessem sua individualidade e seus direitos anulados.
(Tanta mentira, tanta força bruta)O regime militar propagandeava que o país vivia um “milagre econômico” e todos eram obrigados a aceitar essa realidade como uma verdade absoluta.
(Como é difícil acordar calado / se na calada da noite eu me dano)O eu-lírico admite a dificuldade de aceitar passivamente as imposições do regime, principalmente diante das torturas e pressões que eram realizadas à noite. Tudo era tão reprimido que necessitava ser feito às escondidas, de forma clandestina.
(Quero lançar um grito desumano / que é uma maneira de ser escutado)Talvez porque ninguém escutasse as mensagens lançadas por vias pacíficas e ordeiras, uma das possibilidades, por conta de tanto desespero, seria partir para o confronto.
(Esse silêncio todo me atordoa)Esse verso denuncia os métodos de torturas e repressão, utilizados para conseguir o silêncio das vítimas, fazendo-as perderem os sentidos.
(Atordoado, eu permaneço atento)Mesmo atordoado o eu-lírico permanece atento, em estado de alerta para o fim dessa conjuntura, como se estivesse esperando um espetáculo que estaria por vir.
(Na arquibancada, pra a qualquer momento ver emergir o monstro da lagoa)Entretanto, o espetáculo pode ser, ironicamente, somente o surgimento de mais um mecanismo de imposição de poder do regime, representado pelo monstro da lagoa.
(De muito gorda a porca já não anda)Essa “porca” refere-se ao sistema ditatorial, que, de tão corrupto e ineficiente, já não funcionava. O porco também é um símbolo da gula, que está entre os sete pecados capitais, retomando a temática de religiosidade e elementos católicos.
(De muito usada a faca já não corta)Demonstra inoperância, ou seja, mostra o desgaste de uma ferramenta política utilizada à exaustão.
(Como é difícil, pai, abrir a porta)É expresso o apelo para que sejam diminuídas as dificuldades, mas ao mesmo tempo apresenta a tarefa como sendo muito difícil. A porta representa a saída de um contexto violento. Biblicamente, sinaliza um novo tempo.
(Essa palavra presa na garganta)É a dificuldade para encontrar a liberdade, a livre expressão. É o desejo de falar, contar e descrever a todos a repressão que está sendo imposta.
(Esse pileque homérico no mundo)Refere-se ao desejo de liberdade contido no peito de cada cidadão dos países vivendo sob os vários regimes autoritários existentes no mundo.
(De que adianta ter boa vontade)É um auto questionamento sobre a ânsia de lutar pela liberdade, uma vez que o mundo estava ao avesso. Refere-se a uma frase bíblica: “paz na terra aos homens de boa vontade”.
(Mesmo calado o peito resta a cuca dos bêbados do centro da cidade)Mesmo sem liberdade o homem não perde a mente e pode continuar pensando.
(Talvez o mundo não seja pequeno nem seja a vida um fato consumado)A partir deste verso o eu-lírico sugere a possibilidade de a realidade vir a ser diferente, renovando suas esperanças.
(Quero inventar o meu próprio pecado)Expressa a vontade de libertar-se da imposição do erro por outros para recriar suas próprias regras e definir por si só, quais são seus erros, sem que outros o apontem. Tem o significado de estar fora da lei. O verbo aproxima-se do desejo urgente e real de liberdade.
(Quero morrer do meu próprio veneno)Neste verso está implícito que ele deseja ser punido pelos erros que ele vier a praticar seguindo o seu livre-arbítrio, e não, tendo seu desejo cerceado, punido por erros que o sistema acha que ele poderá vir a cometer.
(Quero perder de vez tua cabeça / minha cabeça perder teu juízo)Traz a ideia de que o eu-lírico deseja ter seu próprio juízo e não o do poder repressor. Quer decapitar a cabeça da ditadura e libertar-se do juízo imposto por ela, para ser dono de suas próprias idéias.
(Quero cheirar fumaça de óleo diesel / me embriagar até que alguém me esqueça)Para encerrar, Chico e Gil usaram uma imagem forte das táticas de tortura. Para fazer com que os subjugados perdessem a noção da realidade, dentro da sala os repressores queimavam óleo diesel, cuja fumaça deixava-os embriagados. Entretanto, os subjugados também possuíam táticas anti tortura, e uma das artimanhas era justamente fingir-se desmaiado, pois, enquanto nesta condição, não eram molestados pelos torturadores.

Compositores:



Chico Buarque

Conhecido por ser um dos maiores nomes da MPB e por sua carreira literária. Devido a repressão e perseguição do Regime Militar do Brasil , auto exilou-se na Itália. Foi um dos artistas mais ativo na crítica política e na luta pela democratização do país .


     



















Gilberto Gil
Músico , brasileiro e influenciador da Música Popular Brasileira (MPB). Prestigiado internacionalmente por sua inovação musical sendo premiado com o Grammy, Ordem Nacional do Mérito pelo governo Francês e nomeado “Artista Pela Paz” , pela UNESCO .












Composição:

    Gil entrou em contato com Chico para apresentar as primeiras palavras da música. Gil compôs o refrão “Pai, afasta de mim esse cálice/ de vinho tinto de sangue”, uma óbvia alusão à agonia de Jesus Cristo no calvário, tendo a ambiguidade cálice/cale-se sido rapidamente percebida por Chico. Esse jogo de palavras tinha a intenção de despistar a censura da ditadura. A partir de mais alguns encontros, ele compôs a melodia e as demais estrofes com a ajuda de Chico.


Contexto histórico:

Em 1973, quando a música foi composta, a Ditadura Militar estava instalado no Brasil. A canção havia sido apresentada à censura e eles foram recomendados a não cantá-la. A censura nesta época filtrava os trabalhos artísticos com base em critérios morais ou políticos para apresentação ao público em geral.Critério moral que censurou as artes de uma forma geral.O regime militar se valeu da censura para calar seus opositores e impedir qualquer tipo de mensagem contraria aos seus interesses de ser divulgado, ou seja, o povo nesta época era controlado pelos órgãos do governo, onde eles tentavam transparecer paz e estabilidade social.A música ela tem uma capacidade de tomar o subconsciente das pessoas e propagar ideias, no caso de Chico Buarque, que foi um compositor muito caçado na época usava o duplo sentido para propagar ideias e driblar os censores que só se davam conta depois do sucesso da música.





Contexto técnicos e tecnológicos

Os recursos, nesse contexto, não foi utilizado para a produção da música, e sim para a reprodução da mesma. "Cálice" foi composta para o show Phono 73, que a gravadora Polygram (atual Universal) organizou no Palácio das Convenções, em São Paulo.


Veja essa entrevista onde Gil Explica a música "Cálice".









Referências:
Cálice Chico Buarque. Letras.  Disponível em: < https://www.letras.mus.br/chico-buarque/45121/ > Acesso em 28 de nov. 17
Cálice - Nota. Chico Buarque. Disponível em: <http://www.chicobuarque.com.br/letras/notas/n_zuza_calice.htm> Acesso em 28 de nov. 17
Você sabe o significado da música “Cálice”? Pensador Anônimo. Disponível em: <https://pensadoranonimo.com.br/sabe-o-significado-da-musica-calice-gilberto-gil-explica/> Acesso em 28 de nov. 17
Cálice – Análise da música. Disponível em: <http://projetodeensino.azurewebsites.net/2014-2-e-2/2014/10/17/analise-musical-calice/> Acesso em 28 de nov. 17
Biografia de Gilberto Gil. Disponível em: <https://educacao.uol.com.br/biografias/chico-buarque-de-holanda.jhtm> Acesso em 28 de nov. 17
Biografia de Chico Buarque. eBiografia. Disponível em: <https://www.ebiografia.com/chico_buarque/> Acesso em 28 de nov. 17









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